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‘Passei 50 anos para a água chegar. Vai ser só alegria, não vai ter melhor, não’

Imagem retirada de http://g1.globo.com/al/alagoas/noticia/2015/11/em-al-dilma-rousseff-inaugura-terceiro-trecho-do-canal-do-sertao.html
Imagem retirada de http://g1.globo.com/al/alagoas/noticia/2015/11/em-al-dilma-rousseff-inaugura-terceiro-trecho-do-canal-do-sertao.html

Quem chegar a Riacho do Serrote, no município de Inhapi (AL), e perguntar pelo agricultor José Paulo de Siqueira dificilmente vai achar alguém. Todo mundo conhece mesmo é o “seu” Zelão, que mora ali, no terreno da família, há 70 anos. O apelido vem dos tempos de menino, recebido dos colegas de futebol. Quantas secas já enfrentou? Ele nem se lembra ao certo. Foram muitas, e difíceis.

Mas os tempos agora são outros. Seu Zelão vê chegar a Inhapi a água do Canal do Sertão alagoano. Ele esperou 50 anos por esta quinta-feira (5), para ver a abertura da comporta 9 do trecho III da maior infraestrutura hídrica do Estado. Esperança? Realidade.

Ele se emociona ao contar sua história e em falar da alegria que é ter água. A realidade dos seus dez filhos, 21 netos e 6 bisnetos vai ser bem diferente. Quer conhecer um pouco dessa história? Ele conta:

“Estou aqui há 70 anos, cheguei com dois anos de idade. Somos de Pernambuco, de Afogados da Ingazeira. Quando chegamos aqui era tudo ermo, até onça ainda existia na região. O pai chegou, nos colocou aqui, derrubou as madeiras, fez as roças… no ano de 1944. E aqui continuamos até hoje, trabalhando, descobrindo, ajeitando.

Todo tempo de verão carregava água de um lugar chamado 'Os Patos'. Daqui até lá são 7 quilômetros, mais ou menos. Chegou o verão, já sabia. Ia buscar uma carguinha d’água lá, no animal.

Fomos ficando por aqui, ficando, os outros foram crescendo. Nos anos 50 meus irmãos mais velhos foram para São Paulo. Até hoje tem um pra lá. O único que ficou da família fui eu. São dez irmãos. Quatro mulheres e seis homens. Todo ano eles andam aqui, estão todos vivos, vêm visitar o terreninho.

Aí chegou a seca de 70 pra cá, cada vez mais verão perigoso. A gente fez umas barreiras, umas coisas, e todo verão comprar água. Ah, rapaz, foi tanto ano difícil que eu nem sei direito [qual foi a pior seca].

Nós plantávamos lavoura: milho, feijão. Algodão, tem um bocado de anos que desistiu, ninguém planta mais, porque tem uma doença que não deixou mais criar algodão. E agora plantamos palma para o gado. Plantamos milho pra fazer silo [silagem, método de produção de alimento para o gado por fermentação de grãos ou folhagem]. Mas também está com um bocado de anos que ninguém faz, que não chove. A chuva é pouquinha.

Nas roças de palma da gente eu plantava duas diversidades de palma. Agora, a palma grande, que chama palma língua-de-vaca, ou orelha-de-onça, essa deu uma doença, acabou, não existe mais. Morreu, não tem mais jeito, não teve agrônomo que desse jeito.

Para o consumo da família era só milho e feijão mesmo, as únicas plantas que dão aqui. Não dá outro tipo de planta, não. Só que agora uns plantam um pouquinho, uma tarefa dura (…), mas depois de cinco anos para cá é só verão, verão direto. Dá uma chuva, aí não tem, camarada. Não vem outra para prosperar.

A gente acreditava. Passei 50 anos para a água chegar. Aí está com uns oito anos que passaram aqui fazendo uma estradinha dizendo que ia chegar essa água, oito a dez anos. Está com quatro a cinco anos que começou, começou animado, botaram gente mesmo para fazer o serviço. Agora está todo mundo animado que vai chegar mesmo”.

Acredito que o criatoriozinho vai melhorar um pouquinho. Lavoura de roça que a gente, que eu cansei de tirar 200 sacos de feijão, 300 sacos de feijão por ano, quando os anos eram bons… agora está com cinco anos que ninguém lucra nada aqui. Pegou esse verão pesado, toda época de inverno não chove. Aí a gente ficou desanimado da roça, todo mundo cria uma resinha (rês), uma ovelhinha, é do que estamos vivendo. (…) Estou só andando dentro de casa, mas vai melhorar para meus meninos. Para o povo mais novo eu acredito que agora a coisa vai ser mais fácil”.

Água chegando
“Ah, vai ser só alegria, só festa. No dia que a água chegou ali no canal [no final do trecho II da obra], os 'cabras' gritavam! Os meninos até gravaram no celular, foi uma festa, juntou mais de 100 pessoas ao redor da água, quando ela chegou aí nessa comporta. E agora vai descer para as outras, né. Aí vai ser só alegria, só farra mesmo, só festa! Para nós que vivemos desse raminho de roça, não vai ter melhor não. Vou plantar milho mesmo, que serve para tudo”.

Mas a esposa dele, dona Ana Luiz de Siqueira, diz animada e feliz que vai plantar muito mais.

“Vai ser só alegria. Plantar alguma coisa para servir a gente: milho, melancia, abóbora. Vai servir demais essa obra, vai ser muito bom, para a gente e para todo mundo!”

Fonte: Portal Brasil, com informações do Blog do Planalto